Caverna atribuída ao século XVIII é na verdade uma casa de um rei da Alta Idade Média

 

Arqueólogos remontaram detalhes arquitetônicos e afirmaram que a construção já estava lá desde o século IX, no início da Idade Média. Ela pode ter sido habitada por um nobre que se tornou santo.

Arqueólogos do Reino Unido realizaram uma pesquisa detalhada de uma antiga caverna que se acredita datar do início do século IX, na Alta Idade média. A caverna já foi considerada um “folly” (edifício extravagante, no jargão arquitetônico) criado nos anos 1700 por um nobre inglês, para ele jantar dentro dela com seus amigos.

No entanto, um novo estudo da Royal Agricultural University (RAU) e da Wessex Archaeology acredita que a residência – conhecida como Anchor Church Caves – foi esculpida, na rocha de arenito macio, ainda no início do período medieval.

A residência possui portas e janelas estreitas, bem como pilares esculpidos na rocha, semelhantes aos encontrados em uma cripta saxônica perto de Repton.

Além disso, as evidências sugerem que a caverna foi habitada pelo rei deposto Eardwulf (viveu de 790 a 830), que foi identificado nos estudos modernos como Santo Hardulph após deixar o trono, na Idade Média.

Caverna atribuída ao século XVIII é na verdade uma casa de um rei da Alta Idade Média
O exterior da caverna mostrando o que, provavelmente, seria uma porta e uma janela saxões. (Cortesia: Edmund Simons/Royal Agricultural University)

A residência medieval, localizada entre as cidades de Foremark e Ingleby, em South Derbyshire, é “provavelmente o interior residencial intacto mais antigo do Reino Unido – com portas, piso, telhado, janelas etc. – e, além do mais, pode muito bem ter sido habitado por um rei que se tornou um santo!” disse Edmund Simons, principal investigador do projeto da RAU.

A lendária associação entre São Hardulph e o Rei Eardwulf está anotada em um fragmento de um livro impresso do século 16, que diz “naquela época São Hardulph tinha uma cela em um penhasco um pouco distante do rio Trento”, afirma um comunicado de imprensa. O folclore local confirma essa ligação entre as cavernas e o santo.

Cavernas semelhantes também foram associadas a eremitas ou anacoretas medievais.

Santo Hardulph (ou Rei Eardwulf) morreu por volta de 830 e foi enterrado em Breedon on the Hill, em Leicestershire, a apenas oito quilômetros das cavernas.

Caverna atribuída ao século XVIII é na verdade uma casa de um rei da Alta Idade Média
Imagens de drones mostram o local cortado em um penhasco por uma ramificação do rio Trento. (Courtesia: Mark Horton/Royal Agricultural University)
Caverna atribuída ao século XVIII é na verdade uma casa de um rei da Alta Idade Média
O interior mostra as primeiras portas e pilares que sobreviveram à derrubada paredes parcial, que aconteceu no século XVIII, quando o antigo eremitério se tornou um local de festas aristocráticas. (Cortesia: Edmund Simons/Royal Agricultural University)
A cripta saxônica na igreja Repton, que fica nas proximidades, tem semelhanças arquitetônicas com a caverna. (Cortesia: Mark Horton/Royal Agricultural University)

Edmund acrescentou: “As semelhanças arquitetônicas com os edifícios saxões e a associação documentada entre Hardulph/Eardwulf são um caso convincente de que essas cavernas foram construídas, ou ampliadas, para abrigar o rei exilado.”

“Não era incomum que a realeza destituída ou aposentada assumisse a vida religiosa durante esse período, ganhando santidade e, em alguns casos, canonização. Viver em uma caverna como um eremita teria sido uma maneira de se conseguir isso.”

De acordo com os arqueólogos, as Cavernas da Igreja Anchor foram modificadas no século XVIII por Sir Robert Burdett (1716-1797), que ”as preparou para que ele e seus amigos pudessem jantar em suas celas frescas e românticas,” conforme foi registrado à época.

Uma alvenaria adicional foi adicionada à construção, junto com caixilhos das janelas; e algumas das aberturas foram alargadas para que senhoras bem vestidas pudessem passar.

A datação arqueológica e científica está agora planejada a fim de confirmar as evidências arquitetônicas descobertas pelos pesquisadores.

Mark Horton, professor de arqueologia da RAU, ao chefiar uma escavação próxima, numa área onde há vestígios de vikings e anglo-saxões, afirmou: “É extraordinário que construções residenciais com mais de 1200 anos sobrevivam à vista de todos, não reconhecidos por historiadores, antiquários e arqueólogos. Estamos confiantes de que outros exemplares ainda serão descobertos para dar uma perspectiva única sobre a Inglaterra anglo-saxônica.”

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